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Como o conflito entre Rússia e Ucrânia virou 'guerra de drones' e por que os civis são as maiores vítimas

Moradores observam sua casa destruída após um ataque com bomba aérea guiada russa em Zaporizhzhia, Ucrânia, no domingo, 19 de julho de 2026. AP Photo/Katery...

Como o conflito entre Rússia e Ucrânia virou 'guerra de drones' e por que os civis são as maiores vítimas
Como o conflito entre Rússia e Ucrânia virou 'guerra de drones' e por que os civis são as maiores vítimas (Foto: Reprodução)

Moradores observam sua casa destruída após um ataque com bomba aérea guiada russa em Zaporizhzhia, Ucrânia, no domingo, 19 de julho de 2026. AP Photo/Kateryna Klochko Os bombardeios contra cidades russas e ucranianas passaram a ser cada vez mais constante na guerra da Ucrânia, que já está no 5º ano e segue sem perspectivas de terminar. Os ataques têm matado cada vez civis e gerado acusações de terrorismo de ambos os lados. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Tanto a Ucrânia quanto a Rússia enxergaram nos ataques aéreos uma oportunidade de infligir danos materiais e simbólicos ao inimigo, em meio a uma linha de frente terrestre estagnada, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), instituto especializado em questões militares. Atualmente, os rivais “travam uma corrida pela vitória na guerra por meio da via aérea”, segundo o CSIS. “Embora o campo de batalha ainda seja importante, essas trocas de ataques aéreos em regiões profundas são as linhas de combate com maior probabilidade de forçar um acordo nos próximos seis meses”, afirmou o instituto em relatório divulgado em julho. Nessa nova lógica, que vem se intensificando desde 2024, os civis de ambos os países acabaram virando as maiores vítimas. Inclusive, julho foi o mês mais letal para civis na Ucrânia desde março de 2022, segundo o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha). Segundo a Ocha, cerca de 1,4 mil civis morreram e outros oito mil ficaram feridos na Ucrânia na primeira metade de 2026 por conta de bombardeios russos. O balanço representa um drástico aumento em relação aos mesmos períodos dos dois anos anteriores — 34% maior que 2025, e 114% que em 2024. ➡️ No total, 16,4 mil civis morreram e outros 48,6 mil ficaram feridos na Ucrânia desde o início da guerra, segundo o órgão da ONU. Em julho, "as armas de longo alcance (mísseis, drones) continuaram sendo a maior causa de mortes de civis", segundo a Ocha. No primeiro semestre deste ano, as vítimas causadas apenas por esses armamentos aumentaram 60% em comparação com o mesmo período de 2025. A alta ocorre em meio a escassez de interceptadores e sistemas de defesa pelo Exército ucraniano. A Rússia também registrou mortes de civis por conta de ataques aéreos ucranianos, porém não se sabe a real extensão da perda humana, já que o governo de Vladimir Putin não divulga essas informações. Civis no centro dos bombardeios Mortes recentes de civis causadas por drones causaram choque em ambos os países, com imagens que rodaram o mundo. Apenas nesta semana, dois ataques tiveram repercussão mundial e motivaram trocas de acusações de terrorismo. Um drone ucraniano que havia acabado de ser abatido por defesas aéreas atingiu uma praia lotada no Mar Negro e matou sete russos, incluindo crianças. Moscou acusou a Ucrânia de recorrer ao terrorismo. Veja o momento do ataque no vídeo abaixo: Drone ucraniano cai em praia russa com banhistas ao lado  No dia seguinte, um ataque de drone contra um feirante ucraniano viralizou. Imagens mostram o homem desesperado, tentando se esconder e sendo perseguido pelo dispositivo. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chamou o incidente de "safári humano". Veja a cena no vídeo abaixo: Imagens mostram vendedor fugindo de drone antes de ataque na Ucrânia Os ataques ocorrem em meio a uma nova escalada no conflito entre Ucrânia e Rússia, com uma intensificação dos bombardeios contra infraestruturas críticas em ambos os países. Além disso, os bombardeios também tiveram como alvo prédios residenciais, deixando diversos mortos, incluindo uma família inteira. Em julho, um ataque russo mata 8 ucranianos da mesma família, incluindo 2 crianças; Em maio, um drone ucraniano atingiu um prédio residencial em Ryazab e deixou mortos e feridos; Em novembro de 2024, um bombardeio russo atingiu um prédio residencial em Sumy e matou 11 pessoas. “O uso crescente de mísseis balísticos e outras armas de longo alcance em áreas povoadas traz consequências devastadoras para os civis e está contribuindo para o aumento de vítimas e para danos generalizados a residências, empresas e outras infraestruturas civis”, alertou a Ocha em comunicado divulgado neste mês. Foto da família morta pelo ataque russo que atingiu o Ucrânia na última quarta-feira (29)divulgada pelo presidente do país, VOlodymyr Zelensky, em seu canal no Telegram Telegram (@V_Zelensky_oficial) 'A guerra dos drones' Ucrânia e Rússia escalaram gradativamente seus ataques aéreos conforme a guerra foi se prolongando, com cada lado se adaptando às táticas do inimigo. Os drones passaram a ser utilizados em larga escala na linha de frente. A Rússia empregava Shaheds iranianos, o que fez a Ucrânia passar a produzir seus próprios drones em escala industrial. Para fazer frente ao poderio militar russo, Kiev se especializou no desenvolvimento de drones e se tornou referência nessa tecnologia, incorporando inclusive sistemas de inteligência artificial a seus armamentos. Em 2025, o Exército ucraniano estabeleceu a meta de produzir 4,5 milhões de drones de ataque. A Rússia, por sua vez, também ampliou significativamente sua produção nacional, alcançando uma escala semelhante à da Ucrânia, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). Drone ucraniano sobrevoa front de batalha Valentyn Ogirenko/Reuters Com a maior escala na produção, os drones passaram a ser utilizados também para ataques a cidades, juntamente com os mísseis. Essa expansão da produção transformou o conflito na Ucrânia na primeira grande guerra de drones do século XXI, segundo o instituto especializado em guerra. Em 2025, os projéteis se tornaram a arma mais letal da guerra, superando a artilharia, sendo responsáveis por até 80% das mortes na linha de frente, segundo o CSIS. Enquanto os mísseis têm maior velocidade e alto poder de destruição, as defesas aéreas convencionais —como o Patriot e o Thaad— são projetadas para abatê-los. Já os drones são baratos para produzir em relação aos mísseis e não são detectados por radares convencionais por conta de sua velocidade e altitude de voo, o que os tornou uma arma poderosa. Se os russos disparavam cerca de 500 drones por mês em ataques aéreos em outubro de 2022, por exemplo, em apenas três anos esse número se multiplicou cerca de 10 vezes, e a Rússia passou a disparar pelo menos cinco mil drones por mês contra a Ucrânia desde outubro de 2025. 🔍 Segundo o CSIS, a estratégia da Rússia é realizar ataques punitivos de larga escala tendo como alvos infraestruturas críticas ucranianas e grandes centros políticos e econômicos, como Kiev, para forçar uma negociação que favoreça os interesses do Kremlin. Já a Ucrânia escalou sua campanha de ataques aéreos contra alvos dentro do território russo ao longo dos anos. Em 2024, foram cerca de 7,2 mil bombardeios contra alvos estratégicos do inimigo, um número 12 vezes maior que o do ano anterior. Em 2025, foram mais de seis mil ataques desse tipo até metade do ano. Os bombardeios ucranianos ganharam mais força nos últimos meses, em um contra-ataque possibilitado pela autorização de seus aliados — EUA e europeus— a utilizar mísseis de longo alcance fornecidos por eles para atingir alvos no território russo. 🔍 Segundo o CSIS, a estratégia da Ucrânia é maximizar a produção de drones para ataques profundos e de alto impacto em território russo, com foco em causar dano à economia russa e gerar fraturas na elite política do país. Os principais alvos são o setor de petróleo e gás, e de logística russos. 'Amazon russa' Ucrânia muda de tática na guerra e mira em gigante das vendas online na Rússia A Ucrânia passou a atingir um maior número de refinarias de petróleo russas e empregou uma ampla campanha contra a Wildberries. Considerada a "Amazon russa", a empresa teve cerca de 20 armazéns atacados desde meados de julho - Kiev acusa a companhia de ter relação com a produção de drones na Rússia. A Wildberries é a maior marca de e-commerce da Rússia e detém cerca de 45% da participação de mercado no setor. Entre os sócios da empresa estão empresários próximos ao Kremlin e também pessoas de dentro do governo Putin. A Rússia tem como estratégia alvejar a infraestrutura energética ucraniana durante o inverno e respondeu com bombardeios contra a capital Kiev. Moscou também vem aumentando o número de mísseis balísticos disparados contra o território ucraniano, enquanto a Ucrânia tem interceptado cada vez menos esses projéteis — foram apenas 10,2% deles em 2026. Com as defesas aéreas exauridas, Zelensky vem pedido repetidamente a seus aliados o envio de mais baterias antimísseis. Em julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu que licenciaria à Ucrânia a produção de baterias Patriot, porém depois pareceu recuar na iniciativa. Os dois países também passaram a fazer ataques a navios no Mar Negro. A Ucrânia tem lançado projéteis dezenas de embarcações, algumas acusadas de integrar a "frota-fantasma" russa. A escalada levou à suspensão do fluxo comercial no Mar de Azov. Já a Rússia tem respondido com ataques contra navios de bandeira ucraniana. Centros de logística da Wildberries, a Amazon russa', após ataques aéreos ucranianos em julho de 2026. Reprodução/redes sociais via Reuters